domingo, dezembro 30, 2007

Já me comovo de há dois anos atrás. Recordo-me de passear livremente por Lisboa, principalmente nas zonas comerciais, esperando pelos momentos. Tudo era diferente. Estava mais amplamente só, e no entanto tendencialmente mais próximo do que me rodeava. Soube encontrar-me nas esquinas, descobrir afecto por esta cidade despreocupada. Está em nós, a qualidade da percepção. In the eye of the beholder. A cidade era, sim, movimentada, sob o fino sol que dourava o Chiado. Mas era-lo apenas porque as pessoas andavam, não que tivessem pressa no sentido real da palavra. Tudo pertencia à sua era. Cabia-me imergir nesse cenário. Recolhia os seus tons dominantes, sem horário. As marés interiores existiam essencialmente molhando os pés do resto, e deixando um pouco de espuma e emoções pela paisagem (assim o filtra a saudade, fantasista). Por vezes impressionista, dava-me ainda à materialização de laivos próprios e, de certa forma, de sempre. Ainda que de alma renovando-se, era em parte a infância quem me acariciava ao de leve, memórias e emoções pueris, em sua simplicidade.

Fui um discípulo nesta rota mundana de purificação, por contraditório que tal soe. Não o sou hoje. As altercações são mais intensas, absolutas até. A fase escala, embora não precipitadamente, para um estágio antigo de excesso e de fracasso. Por demais me adapto, escorregando do posto de observação em que a identidade era, resguardadamente. Por demais sinto o tombo pesar-me na espinha dorsal. Quer dizer...

Tem dias.

Talvez decida voltar a vincar a espiritualidade. Talvez volte a empunhar o escudo, junto com o gládio. De qualquer forma, tal pouco importa agora e aqui. Ontem, ontem sim, perpassavam múltiplas anotações pela minha mente, que incluiam também estas recentes lembranças. Ontem passou, como passaram estes dias. É verdadeiramente no passado que reside este hoje, que apenas recupero, sumáriamente, restauração evidente.
Deflagra a temporada
pelas reflexões.

São colinas perigosas, estas.
Rasgam-nos a pele da mente
se as tentamos atravessar, incautos.

A sensação que impera
é que me esqueço de metas e de mim algures lá atrás
enquanto sangro pela paisagem.


Espinhoso percurso,
a cafeína.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Desabafos silenciosos...

Porque exigem tanto de mim?
Porque me indesejam?
Me não comprometo
com a fria realidade,
mas o aquecedor é falso -
deixo de estar.

Dói-me o sítio.
Dói-me a repetição
desta palavra eterna,
mas ecoa,
ecoa...
e ecoa.

Hoje transeunte banal;
Hoje, mágoa social
que perpassa lá ao fundo,
cada vez mais nesta sombra
que não é escura...
apenas incolor,
apenas paralela,
apenas.

Como sempre,
a estrada não se partiu em duas,
não houve bifurcação;
Apenas se projectou uma miragem
de cimento
onde era o terreno inóspito e a dureza
de uma pátria surda e exterior,
acolhedora somente à sua maneira.

Não à minha.
Ou pelo menos
não para comigo.

Quero que se foda essa tua opinião.
Quero que se foda o estereotipo
em que recaio,
e quero que te fodas com ele.
Já que não me dão o mundo,
não me espremam outra vez
os sentimentos,

essas vossas vozes redutoras
de quem não sabe na verdade
o que é ser ninguém,
o que é não poder sofrer verdadeiramente
por se não ser ninguém,
por não ter que a frágil mente por estimar.
Viver sim,
mas com que sabor,
em que reconhecida paisagem (em que eles?)
que me permita não estar aqui
a cavar mais este fosso...

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Pondero o sono. Faço esforços por me arrastar nesta folha de papel, cursor exaltado de obrigação para com a carência, martelado em diante por dedos sem dimensão. Paralelamente reescreve a mente uma página de simpatia, traduzindo pouco à letra os momentos conjuntos entre dois, capturando selectivamente a essência das frases de passado no processo. Pequeno escape à solidão, arquitectado com base em mera aproximação que não foi assumida com a abertura plena dos sentidos - comunicação - e portanto que o não foi verdadeiramente. Aos olhos do par (restritamente, apenas), simpatia e até predisposição não são bastantes quando se não complementa, com a presença espontâneamente pessoal e involuntariamente (não por escape-compulsão, pretensa resposta a requisitos) descritiva, a demonstração da legitimidade de uma expressão mais íntima enquanto informal e, de certa forma, comum.
De volta à mística mundana que destrói (exponencia as possibilidades, muito delas derrotas percebidas), volto a refinar a minha perdição.

Anuncio a dôr como quem brada ao exército o sinal de investida, vale abíssico abaixo, os canhões do estabelecido mundo armado escorraçando o grosso das forças. Desfeitos sons de guerra na fronteira da auto-estima...

...Fogo de artíficio horrível e humano. Ainda assim, seus sons (dramatismo) me propagam, recordação cadavérica esmagada num livro árido qualquer.
E hoje, ao entrar numa noite disfuncional, possuidor daquela ânsia característica dos tempos de juventude irresolúvel, denoto como se perdem as tendências, abafadas pela noção de minhas limitações, pelo peso carregado do exagero, exagero esse ora de voz, ora de silêncio, de demonstrar condicionamento.

Sobretudo, atordoa-me hoje o nervo miudinho que está patente na mera presença, e se me degenera portanto numa acumulação de pequenas pontadas de frustração, de faíscas da consciência do que seria expectável por contraste ao que é dedutível no crescendo abstracto da insuficiência minha.

Foi assim o dia, mais coisa menos coisa.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

E aqui estou, novamente, encostado a este desespero passivo de folha. Desentendido de realidades, incapaz de mim, esfuma-se de novo a tocha tímida que prometia resguardar-se centalhas reveladoras.

Brindo a estas janelas todas semicerradas, fuligem do tempo impôndo-se aquém da lareira, desbotando-se a visão e o oxigénio. Espectadores, o coma imperfeito.

- A Primavera?... - Desperta-me a náusea esta voz trémula e imersa que apela à estação abstracta. No apeadeiro do Jogo, a tocha é o comboio que vem e vai a vapores. Chega a instalar-se o enxofre nesta mecânica que chia, embaciadas.

É de entre a normalidade que visitara que sou demente, por fim. Espreito o pátio e o jardim e os brinquedos idílicos visitados pela chuva, esqueléticos e inadequados.

Não esquecer nunca a dôr antiga. Não esquecer nunca! Não perder nunca o que me distingue e me eleva a esse Abismo de almas, sofrendo pelo corrimão contrastante, dolorosa Serenidade.

E extingo-me, morna incandescência. Enquanto aumenta o carvão, as palavras.

Transfiro-me destrutivamente.

domingo, setembro 02, 2007

Perseguição

São pessoas a virem falar comigo, a imperar empíricas, a me relembrar da imobilidade no colete de forças, a me reportar a um cortejo em que sou qual Embaixador delas, de mim nelas, de sua política implícita. Conduzo a missiva na charrete protocolar, súbdito da aparência estatutária, o Alguém.

Escapatória

Provoco os deuses, eliminando arestas da Grande Teia infinitamente geométrica. Esbracejo em seu profundo suporte, projectando-me incertamente qual criança no trampolim, as regras - sim, mas do Desconhecido - tomando a forma de saltos aproximadamente aleatórios. A mim, ó Cafeína, existência sagrada ecoando, retecendo vibrações pela inexistência última e, por entre travos amargos que a espuma adocica, ignorada. Alongo o braço excessivo, querendo extrair elementos a este abíssico subconsciente.

Encruzilhada

Na selva do nefasto rugem promessas próximas, agitando o coração de medo impaciente, temendo pela vida entregue ao verdejar do imprevisível, rodeando a presença inactiva espelhando os troncos físicos (ramificação estática). Não há diligência nas mensagens. O compasso da selva é de uma cadência louca, petrificando a instrumentalização e o ego. Por ele, arrastam-se trechos sem tom ou direcção, rinocerontes solitários sem plano, enfurecendo-se devastadores perante a majestade indómita que os não acolhe, esbarrando contra as árvores seculares a sua indecisão emotiva, impotência da besta em firmar seu ensejo, em afirmar seus chifres. Dói a passividade frenética, o contraste íntimo de predador e presa, ambos um só envolto em frondoso, deixando apenas entrever o vôo dos pássaros que, aéreos, tudo verificam, pontos livres em trajecto pelo céu limpo.

Recaptura

Gradualmente a fera esquecera-se na rotina da jaula. O desfecho é continuadamente trágico, como só pode ser, na literatura ou na vida - ínumeras hipóteses em aberto, clareiras perdidas à sombra da Hora, mortes antecipadas até do remorso, alastramento inequívoco do Assim. Os efeitos desvanecem-se, e o negro dos olhos é cada vez mais completo, encerra cada vez mais os enigmas que outrora invocava, traços de brilho desperto no papel amarelecendo-se, sedados pelo tempo e pela desistência. A virtude é só quem se era, num backstage anexo ao anfiteatro onde se entabulavam sonhos inconclusos e por isso se cancelava o espectáculo. O sono apropriara-se do corpo frustrado, a ansiedade esfriando-se amargura e ulterior anulação, e dormia-o agora perante todos, ressurgindo a dura estabilidade da rede em que atentavam os esforços idos, agora irresolúvelmente esmiuçados pela espera, Grande Aranha da alma. A busca pela psicose redentora entornou-se pelo indefinível, e o isolamento, ainda que manchado, ditou a pessoa, autenticidade prescrita. Restam só miniaturas à ruína que é o rasto em decomposição, rosto ligeiro do passado.

Síntese do remanescente

I
O céu é de dia.
Larva, já és borboleta! -
Côres flutuando.

II
Um camponês lavra.
Também as vespas cansadas
semeiam seus êxtases.

III
Vida, ressoando
sua essência sazonal -
o chilrear dos pássaros...

IV
Terrenos inférteis.
Fúria humana ao vento. Sempre,
a grande colina.

V
Brisa e terramoto.
Canteiros suaves e fortes
murchando igualmente.

VI
Toupeira, tu foste
contemporânea da dôr.
É noite. P'rá toca!

VII
A metamorfose
qual sonho findou. Escurece.
Quais são dela as côres?
Ruptura

Estou onde não me recordo - tenho o sangue quente, a zanga é material, e sinto-me outro. Toda a minha vida é, em seu pleno e altivo direito, e a tensão apenas me reporta à noção que repousava de que o mundo é agudo na sua pouca maleabilidade, repleto pois de frustrações dolorosas, de acontecimentos fazendo questão de trazer até mim o predestinado conflito de posições, suas indesejáveis intervenções em meus modos, seja por crítica ou por exigência implícitas e dedutíveis dela no contexto em que são. Aquém da idade, aquém da passagem, hoje é o ser e ele doer-me.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Desemboco.

Pelo preâmbulo, grande cais ao mar que fustiga, antecipo, a mão ansiosa pousada sobre a testa franzindo-se, uma galera vindoura, por distinguir da nebulosa distância azul. Cintilam mais forte os reflexos de quaisquer feixes de luz, doirados, incontornáveis. A visão, atordoada pela insuficiência de sombra, desprotegida à palpitação inebria o ser e a estética, infernal qual electricidade estática mapeada no ecrã interior onde se procurava a concentração. Medidas as forças, o tempo arrasta consigo o pulso sonhador, rebate a ilusão e afasta a personalidade.

Proa por vir, quando serás a miragem redentora, harmonia de tons na tela que pintarei por fim, os dias meus e nossos? Aporta na enseada do meu espírito, que embarcarei pleno e artístico cumpridor da maré irradiada pela verdadeira côr de mim. Até lá, mergulho a cada sétima onda num amor oceânico, sua ilustração incerta e fugaz.

terça-feira, agosto 14, 2007

Desmantelamos o movimento
sob a alçada dos dias.
Ultrapassamo-nos,
e eis que a paisagem se desfoca,
eis que somos desalinho
agarrados a um passado
que nos não pertence;
chama-se estabelecimento,
precursor desfalecido pelo Cemitério do Tudo,
e nós, seus cúmplices,
revisitamos meramente,
a virtude transmudada em erro,
excepção ao vazio pessoal, meramente,
ao invés de própria
na pragmática da regeneração real e entre outros.
Tela invertida,
pois vista à memória espelhada,
só mais uma acepção dos conceitos de mim
deturpada pela emoção,
antecipando-se o resguardo
que de tais modos se disfarça.

Outro ensaio,
complexidades derivadas da simplificação
de nos perdermos aos dias vagos...
Não aceitação.

sábado, agosto 11, 2007

Denoto uma urgência.
Brusca,
como a ponta de um lápis imprime o seu cinzento.
Empunhando a arma de carvão,
ainda incandescente,
o imperador do que ardeu.
Extensão lânguida,
à janela
trilhada pelo sentimento sem fim,
vivendo a decrepitude
induzida pelo quente caos -
entardece.

Que das cinzas florescam os nenúfares!
dita o desespero,
raiva destroçada por personificar.
Sereis o candeeiro ténue
harmonizado com a melancolia,
sossego a reatar o rastilho da criação.
Fervilho menos.
Exproprio a dôr e a ânsia,
revolvendo refúgios escassos,
vocábulos dispersos,
a falsa vastidão de nenhures.

Escassos trechos de amizade
perpetuam-se, repetindo,
na imaginação da inquietude,
enquanto me desencontro de vós,
enquanto me procuro enternecer de esboços.
Um,
almejo a renovação,
velha fénix encostada numa esquina
esperando em silêncio.
Uma metáfora indestrinçável,
esta realidade.

Escôo as últimas gotas rubras
para a taça de que sorvo
o conceito de antídoto.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Do lado da contra-cultura,
tudo é uma luta
involuntária.
E perco. E perco...

Destrono-me de essência,
desatarrachadamente.
Quais os objectivos?
Em tempos, solucionei o tempo
resguardando a mente para a prática,
reservando o fracasso para então.
Mas entretanto, deixei que germinassem
novas ninhadas de bichinhos
para corroer as horas aguçadas,
e por vezes contagiá-las com doenças culturais,
essa praga tão complicada e múltipla quanto as vidas...

Custa tanto acarinhar o positivismo,
quando o que se sabe são papéis que o vendaval agride,
e quando o firmamento é inimpugnável às não-energias.

O motor faz vrummm!
São cenários de guerra,
pé no acelerador, persigam o pó!
Lancinantes velocidades
inconfessas
revolvem o planalto assolado,
e perdura a insignificância das partículas
e um bando de náufragos tossindo o desembarque,
a maré de rarefacção poluta
abstraíndo irreversível
o trilho e a vegetação
minha ou nossa.

Falhos,
os passos.
Andar e tropeçar,
ou quedar-me pelas vertigens?
Dolorosa a missão,
cravos enraizando-se nas polainas,
dilacerando...
pés esvaindo-se em incertezas vermelhas
que gritam à nossa sensibilidade,
evitamento civilizacional, camuflado,
desequilíbrio pungente
apregoado
pela carpintaria de todos,
das escolas, falsidade,
incurável amnésia,
o grupo sexuado e moderno,
apologia de conduta por papéis
facilitadores da impessoalidade personificada.

Já ninguém sabe comunicar com as flores.

quinta-feira, agosto 02, 2007

São vozes da decadência,
trinando noite dentro melodias fúteis
do sonho antecipado, rebaixado
à mísera condição de trauteio amargo.
Não te suplanto,
ó pasmo de gente que queres ser um.
São lâminas enferrujadas,
pedaços de metal impiedoso
trinchando a pele tingida de sangue,
procurando afogar o suor,
ruborizar a noite de alva escuridão,
em vão,
pois ela mesma,
a tela onde se projecta a cirurgia,
a escama de bisturi carcomida pelas traças
de sentimento, de anos dolorosos,
ela mesma é o reverso de um dia,
névoa-cegueira,
atordoada pela luminosidade absoluta,
clarões de tudo, permitindo nada
como veículos que entopem a estrada de fim incerto,
como uma armadura de bronze,
dura e seca.
Canto metálico que se ergue de um lamacento leito,
conjectura orgânica de chuva,
afogando-se no pântano da desesperança.
Longa é a distância, e a noite densa.

domingo, julho 15, 2007

Tenho saudades minhas.
Tenho saudades de quando não trazia este peso, sempre, esta massa latente a exigir de mim naquilo que tento ou que estou, estas cortinas maciças não mais que entreabertas.
Dói-me esse passado. Doem-me os nervos. Dói-me tudo.
Rompeu-se o cordão umbilical que me ligava à alegria. Aquelas vibrações sorridentes, aquela disposição permanente para a vida, perante a vida, tudo isso trago amolgado num frasco difícil, antigo.
Já foi assim. Deixou de ser. Anos e anos passaram; Rastejei, ansiei, vislumbrei, assisti, resisti, existi.

E daí?

E agora??

?...

...e agora?...

A questão que me coloco é esta:
Onde quedar-me a viver (mas a viver de facto)?
Com quem mais a acompanhar-me, numa nova excursão, em novas redescobertas?
Sem a vergonha e raiva, más companheiras desde a adolescência, frequentemente esmorecidas em pesar e evitamento, tudo isso por não me soar seguro, por não me sentir livre e assim deixar de o estar, por me julgar a falhar enquanto ser capaz, solto e social - por existir todo esse julgamento pré-concebido instaurado nas atmosferas, aos poucos impregnadas onde haja restantes.

Onde e com quem - só isso.

domingo, julho 08, 2007

Caí, e fiquei a olhar.
Tentando pontuar, a procissão de obedientes detentores do paradigma que definiram sem cuidados. No molde onde se inseriram, formada é a lógica de separação do que deve, com base no modo, no quem protocolar.
Dobro-me, e choro.
É um choro quase bonito, vergado sobre os álbuns, todo o espólio através do baço plástico. O desuso acolhe-me, feto que tem lugar, de vagas memórias complacente. Um metafísico fim de tarde, despedindo-se.
Volto a concentrar-me na atmosfera, e reconheço a gente que está a caminhar ao meu lado, espalhada como um perfume impreciso, nos corredores suburbanos (pois deslocações). O perfume que emana é a simplícia inferência de um método, uma absorta fixação pelo enfático, e o desconhecimento que há nisso.
Transeunte adverso, inalo espaçadamente, soluçando ainda. Cedo me corroboro de um desterro da presença, por entre angústias e fonemas, sempre pouco e além.

Haverá esperança?

segunda-feira, junho 25, 2007

...estética de algum Oriente... (A tendência.) ...fantasia-neblina de mental alcance...

Será que me ultrapassei?

O peão observa cabisbaixo o harém infinito que o rodeia, cavaleiros indómitos na planície irregular até à praceta próxima distante. Um por todos (e todos por um), bradam - berram, e ao meu ouvido... Por onde, para onde reverter o passo, instância-Humanidade? O que feres é o que és?

Surely not... You're just so lost in probability... Perdida em dialecto, esqueces a linguagem, bebé agarrado à metáfora palpável, cúmulo antecipado da ilógica que axiomatizaram primeiro. Adequas-te pois à oferta, procurando. Defines senso sem reflectir...

Contra-senso! Insurreição libertina! Vos invoco, conceitos reveladores. Providenciais vozes sussurrando, cada vez mais alto, conexas pontes para margens, hemisférios de humildade e de dilúvio... Rasgo folhas com a voracidade de um mamífero virtual.

Assim me ordeno, ilustre propagação-entrusamento, esboço de cataclismo de nada.

sábado, junho 02, 2007

Devaneei.
Por entre as pequenas memórias, de capacidades esmorecidas, fiz da vizinhança etérea um recosto ensonado.
Os meus suspiros deitam-se na cama de se apagarem as luzes, e espera-se por um desconhecimento misericordioso.
É o remorso do inexpresso, obscurecido; a distância intransponível de um passo que sofre a metáfora que é o amputamento, repetidas vezes, na estilística da antemanhã que veio tingir de breu o céu solarengo.
E é enfim o cansaço.
O cansaço de convergir mal por protocolos, de fender à mundana superfície, de soar sem autoria. Perante o que é alma e beleza, mais tarde ou mais cedo, o recluso se esbarra contra as grades que precedem o tangencial, as meta-barreiras geradas pela imagem de si mesmo, a recursividade do impacto de as deixar transparecer.
Doem fracções desprezíveis neste cansaço, ele sim grande.
E em particular, dóis-me, exponencial do que afunilo face à tua presença, da minha massa toda, em quantidade, olhar após olhar, dia após dia, complexidade após complexidade. Dóis-me na altura certa, em que, perfeitamente ciente, faço o errado porém, e deixo afastar-se a rédea, contemplando abstractamente o meu momento irresolúvel. Dóis-me e dóis-me estúpidamente toda a minha estupidez espelhada em dôr.
E doer-me-ás novamente, assim o sei, meu Amor... Nenúfar púrpura espalmado em mim.
Palavras ilegítimas, bem o sei, explorador que de tanto interior se adensar pelo trilho, ainda por palmilhar, se refere agora idílico a uma verde clareira que nem sabe se o espera para lá do arvoredo.
Resignado, o corpo mental cansa-se cabisbaixo no ginásio das derrotas, e retira-se para mais uma noite de tréguas.

domingo, maio 13, 2007

Quando não se esteve nem foi
que não com um cérebro fértil,
acertando os parâmetros e as artes
ansioso como um coração,
esperava-se pelo batimento do compasso,
revendo próximo o ideal
conducente à aceitação própria
e derivada de haver definição,
seja ela as consequências necessárias.

Foi preciso lidar com as derrotas
que um cérebro demasiado atento
media, réguas negativas esgotando
a energia dos traços. Geometrias
de ser recalcadas desenharam-se
e foi preciso dar passos atrás
até à caverna do ínfimo,
estática à sombra das forças.

Da caverna se iluminaram
dedos imaginativos,
desenhando nas suas paredes
as memórias de antepassados,
memórias baças e ásperas
e extremamente incompletas,
mas que eram eles mesmos pintando
e ignorando sintaxe,
toda essa esmagadora sintaxe acumulada.

Por fim, inócuo por desvio,
se caminhou para o percurso
de à luz do dia observar,
mas sem cérebro - com o passeio,
como que sob a tutela de um mestre Caeiro,
simplícia libertação.
Belo princípio de um círculo
que afinal traça a lembrança
de ele já ter sido completo,
de já ter sido um sorriso.
E quando o seu largo perímetro
se emancipa suas vertentes
à geometria,
cumpre a órbita a sua rota,
menos anos-luz para a meta,
a felicidade em mim.

Já não sofrerei o que já sofri,
auto-imune.
Entanto, sofro agora
uma outra forma de passar,
perdidas que estão as quimeras
junto com a dôr.
Cansam à alma, veterana aleijada na guerra,
os prefácios do livro de ser,
revivê-los, ainda
em semelhante circunstância, afinal.
É caimbrã na caminhada
reconhecer a lógica do mundo,
diatónica e bipolar,
no espaço como no tempo,
e principalmente nessa mesma métrica
que relembra as minhas mesmas cedências,
por disparidade,
e agora até de fôlego
por desabituação.
É difícil não findar reverenciando,
parcialmente, a mecânica do costume,
quando eles mais se acercam e exigem,
sem saber que o fazem - mesmo até sem o fazer,
antagonismo que se verifica.

É preciso aceitar o etéreo ranking
em que o alheio, mentalidades, vê amíude
os pequenos gestos e suas razões pequenas,
e até as pessoas que os tentam,
extrapolando visceralmente a sua dimensão própria.
É preciso aceitá-lo, e não percebê-lo.
Renunciar à noção do mesmo,
mas não sem antes admiti-la.
No âmbito das presenças
sempre que se quer, é o retorno.
Mas é preciso marcá-lo primeiro
com os joelhos erguidos da lama
invisível de quedar passivo,
aos critérios excessivamente estruturados
da estimativa social excessiva
do que se é e se pode,
para se poder pensar ser,
para poder agir ser.
A temporada decorre, e nós com ela.
Tempo fluvial que nos arrasta montanha abaixo...
pela semana determinada,
a determinação é mera cúmplice do que é
e do que deve,
caminhos de cabras calcorreando-os
balindo alguma natureza por esquinas formais,
rocha, pedra pontualmente de apoio,
o meu blog hoje um outro exemplo disso
enquanto a mera síntese disso,
parando eu para pentear o desmazelo
que é esquecer-me com as mãos
enquanto fogem as palavras,
que não vocábulos,
verdade e só,
pelos transbordos ligeiros das margens
que se humedecem assim,
assistindo mormente.
Assim imagino o que flui
pelo insípido passado - passante -
que afinal está mais seco que molhado,
vestígio enlameado onde o rio prossegui.
Pouco é o meu leito, mesmo quando chove.
Quais mãos de bebé, carícia que se perde.
Salpicos na terra já antiga,
orgânica indiferente.
Ó, triste química, mundo,
gente a trovoar em meu peito
o seu mesmo exterior
e enxofre.
(Irrespirável.)
Vos lamento com todos os olhos,
desentendimento
no lapso planeado e cumprido de fazer
só porque é um acto o andar -
só porque é um trilho.
Discórdia íntima
- ó triste totalidade, genérico -
de ser convosco, ao vosso lado,
e ceder,
ceder-me, desejo simples e aberto,
ao resguardo cerrado da auto-estima -
eu endereçado o fútil zero -
inviável, e o resguardo ainda
de me perder pelas horas
deterioradas
que me envolvem como um lençol indesejado
apertando-me calor a torno
e fazendo-me sentir o meu suor
à sufocante medida que mergulho nele,
asfixiante resposta qualquer,
etiqueta e momento.
Ó, é o retorno,
a pequena ilusão, mil em uma,
a pausa de ao experimentar
- ritmo, réplica,
cumulativamente exaurindo -
me não poder experimentar,
me não conseguir...
E ei-lo, o desfecho trágico
com a subtileza do que é secundário
na vida, justamente.
Previsível, dir-se-ia... Pois,
que entretanto sou eu.

sexta-feira, abril 27, 2007

De onde vêm estas linhas?
O que as gera?
Quem sou eu?

Não, não são traços desbotados,
salpicos motorizados de dentro do depósito,
gasolina dos dias de percursos...
Não. A sede é diferente.
Para mim, arte não é sentir; é sentir-me -
basta a verdade como qualidade,
quer-se o propósito sendo um comigo,
a pele remendada de nos construirmos
por sobre a ferida a arder, latejantes.

O sonho sou eu, é a promessa que fiz
em anos de arder, carne viva, infeliz.
Arte é querer ser côr, e recuperá-la
apesar do torpôr de não saber está-la,
de não ser ninguém, de nunca o ter sido
de em escassez além no mundo sofrido
que é todos a rôdos, presenças sem fim,
um grande salão de alegrias sem mim,
informal infantário de diplomacias
onde não há espaço p'ra simples grafias
de querer fazer laços com a liberdade -
Ser eu, sim, sim! Eu, dentro da cidade
onde não há espaço, pois tudo é concreto,
para um meu regaço, sem ter que ter tecto;
Eu, fonte rara em termos de jorrar,
tecido frágil e pronto a rasgar
deixando escorrer as gotas de sangue,
sangue silente pela pele doente...
de pouco respeito que o acalente
e, porque não, de amôr que me trate.
(Amôr, amôr... esse velho forreta
que da ilusão vai sendo alfaiate
disfarçando mal que não está escarlate,
rosa que murcha no tempo do jarro.)

Conservo em cristal essa esperança,
e espreito sempre que não embacia.
Tudo o que busco e revolvo nas horas
é mero e singelo porém.
É o sorriso íntimo de discursar ser,
a respiração de agradecer
com a essência vossa pluralidade.
É a vida que é esponja embebida em vós,
amizade que é o me descobrirem,
o me encontrarem, o me aceitarem,
ambição-cicatrizes.
Querer dispersar-me, e apenas.
Ser, para lá da ostensividade
de mecanizar o acto na abordagem,
de ferir a pele, raspando-a, do outro
qual espátula, incisiva sem dó.
Ser, sem primária lei e indiferença
que não o superior entendimento, comunhão,
o pilar de uma Acrópole humanista, bela,
onde as pessoas não têm nome, e sim identidade,
onde as pessoas não têm idade, e sim o presente,
onde as pessoas não têm sexo, e sim corpos,
onde as pessoas não têm moda, e sim ideal,
onde as pessoas não são consideradas inferiores,
pois há a noção íntima de julgar à superfície ser superficial,
onde as pessoas não são tratadas inferiormente,
pois há a noção íntima do sofrimento infligido infligir sofrimento,
lá, onde as pessoas são felizes, parte activa da felicidade umas das outras
na sua forma de estar, na sua forma de apreciar os momentos,
nas suas formas, sublimes e expressas.

Gente cristalizada, transparente
pintando as flôres que é
na tela impalpável do cosmos -
Quero ser um de vós,
lindas lendas,
dócil utopia.
E bem sei que és real,
minha poesia...
Fascínio que vislumbro
entre as pálpebras pesadas -
Lua que durmo estas noites -
acordarei por ti, à aurora.
Um dia.

quarta-feira, abril 11, 2007

Podemos ser vistos como planetas. Rodando, concêntricos, tudo em nós ganha um fulgor luminoso quando a volta se completa. É o da compreensão intrínseca ao ser. Num universo largo, nossa viagem obscurece-se facilmente entre outros grandes rochedos derivando. É necessário recuar no espaço para que o tempo nos esclareça, conjugando zonas de espaço que são memórias da jornada antiga de sempre. Vivemos, metades esquecidas, recíprocamente. Simples, a poesia é a curto prazo o sentimento de cada uma. Complexa, a vida - a curvatura, erodindo-se árida pela algidez nocturna, perdendo-se indefinidamente.

segunda-feira, abril 09, 2007

Era a referência quem fornecia os pesos e medidas,
na filosofia que sucede à assimilação.
Presa a um fascínio, dissimulado.
É vida a arte, é vida o pensamento,
vida lutando nas malhas do que foi.
O tempo é tecedura.
Nossa consciência, visão apocalíptica da mais horrível redenção.
Não há controlo, apenas o acto de refrear.
Não controlamos, apenas esmorecemos,
pois que sem passagem a não sentimos.
Fechamos os olhos, pressentimos menos...
Tudo esmorecendo-se...
Pobre o homem que crê, que ele descrê.
Incapaz... - A nebulosa verdade que os céus detêm.
Ser criador é não estar à altura.
Ó grande pirâmide!... Sepulcro!...
Enorme antítese insolúvel!...

quinta-feira, abril 05, 2007

O peso das palavras volta a impôr-se nesta falsa suficiência, ele como tantos outros. Nisto resguardo a estética dos pequenos acertos e desapareço. Socorro, que não me vejo a imagem no espelho do que estou, do que está! Resgatem-me o trecho náufrago da turbulenta, viciosa noite... O quem que te soa é já um alguém.
Ora feito o apelo, cumprida a cedência, vergada a arquitectura; d'ora me prossigo, insignificante às indulgências menores. Deverá assim ser, e bastar?...
Por ora... Bocejo... Lá longe, a hora passa... E o nada, que é tudo... Bocejo.

domingo, abril 01, 2007

Um âmbito social me preenche hoje a indecisão. As horas passam de um outro à vontade. Alguma certeza se acumula nos sentidos, algo mais conhecedores do propósito diurno, e a noite reside para lá dos olhos vossos. A negrura fere menos, é mais duradoiro o chão. É assim sempre que me revejo em momentos acompanhados, sempre que constato a contagem, e os trechos de essência são suficientes.

Sabes a ânsia que tolhe a calma silente de um pano de fundo, que cala o diálogo com trejeitos de verbo sem frase? É a de não ser interessante, de temer o vazio, de evitar a recursividade inerente junto às apreciações necessariamente negativas numa complexada perspectiva. É a tremura de não ter uma base de expressões persistente, um conjunto rotineiro de falas e ênfases para cada fase exterior da presença, cada estímulo mundano, cada sentimento que lógicamente se impusesse à situação. Esse baço horror compulsivo de haver uma ordem maior, um culto de personalidades agrilhoante em exigências, agressivo em julgamentos, averso à concepção e ao acto de experimentar, averso portanto àquilo onde, potencialmente, me traduzo. Esse meu retrato exagerado de uma humanidade mais imediatista e hierárquica do que talvez seja, menos positiva e acolhedora do que talvez possa ser. É ele que vislumbro, certos dias, com pena, que fora arrependimento se culpa houvera, entre os farrapos de cortinas que ele por vezes me faz ir correndo.

Mas quando a luz bate, frontal, nas faces dos passageiros reais, reflectindo a eterna Novidade em seus traços carnais e simbólicos, reanima-se a alma e a beleza. E quando ambas se dão consonantes, e as notas ecoar se permitem, reencarno a viagem que o revérbero doira, entanto escasso. E o comboio trina e galga carris de distância.

sexta-feira, março 23, 2007

Raspando o meu perímetro, ferindo-me os sons e a resistência, crispação férrea, não fenece a repercussão cíclica da tua garra. Meus pensamentos são interjeições arremessadas contra a fundura dos murmúrios, chão abissal. Como uma fera castrada, a maniota vergando-lhe o impulso irado, és a chama extinguindo-se no amplexo funéreo dos meus planos de pessoa. Sim, és o pneumococo ardendo consoante expiro.

Desenraízado da cidadela, polarizei, sem polimatia que não com a pretensão, líbido dos conceitos perdendo a carga. Mais que a massa, pesa-me a terra desertando os meus confins, espalhando-se sob a poalha característica do dia de abatimento. A silhueta do tronco é o substantivo cuja etimologia é incerta, solilóquio nas acústicas hécticas pelas quais recordam e pintalgam os zumbidos algum soçobro inquieto.

És a cruzada constante e o círculo, e eu as centelhas de bruxa que falhou a mágica de flanquear, descabelado sem fruto. Oh, ábditos músculos doendo pela floresta, seus tantos verdes tão verdes, tão externos... tão intrinsecamente externos, tão mais externos que eu...

............. frrrrt frrrrrrrrrrt (A noção disso arranhando, silvedos.)

domingo, março 18, 2007

O definido dos contextos apazigua, ao enquadrá-las, as diversas pinceladas metafísicas que ele sabe e/ou descobre, autor, consciência e exercício fundindo-se. Serve de covil improvisado para as feras desordenadas do passado, que rasgam e dilaceram a planície durante o processo de síntese faminta. Covil, mas não abrigo, pois perdura a chuva confusa e real na urbe diurna, precipitando-se por sobre os charcos e encharcando os quadros difíceis. Surrealizou-se a promessa, e a ambição desfaz-se nesse ateliêr pobre de contorno, cuja difusa miséria se abate e repercute nos artistas assim privados de escolha, do métier. Da míngua e estéril impaciência se soergue um vigilante, húmido. Pelas esquinas, caminha e aguarda qualquer desenlace, qualquer traço de alma passível de ser desembocadura dessa fluvial tempestade, perdida que está, escoada que está a palette de viver, arrastada pela sarjeta indiferente a cores, a temas e ao cumprimento nele divino.
Hoje, entretanto, eclipsei-me à circunstância vazia. Espero por um regresso teu, ó imponderável manhã da interacção respeitosa, que me faça regressar para reocupar o intérmino labirinto de abrir-me, respirar-me e sublimar a minha busca por uma paz maior, suprema. Rendido do resto, de joelhos para o pórtico que dá para a rua mundana que conduz aos verdes jardins, volto costas ao altar e observo como é breu o ontem, como é esquecimento o saber. Um cansaço absoluto desce sobre mim e fecha-se em meu torno, como uma mão cujo braço está prestes a perder as forças e assim o exprime. Preconizo apenas, sonhador mínimo, o amor e o carinho independentes de tudo que, com a maior das simplicidades, as almas passageiras ofertem à minha habitual orfandade.

sábado, março 17, 2007

Revolvo o meu desequilíbrio uma nova vez e mal reparo como, das sombras de ondas que espumo com a caminhada cambaleante, fumega discreta a essência do ontem. O intoxicante odor a cinza adverte-me, sugestionando a erosão e até a perda, e sei os momentos como uma sina. Onde estou, que torneei a esquina de algo e do demasiado vago? Onde estou, que se me metaboliza a palavra pela rua desértica em que secam as vestes, os estendais de ninguém?

Da cultura, céu escrito ou colocação, entornada pela providência e raridade, embebo o filho abastardado num esboço de perspectivar entendimentos. Reverto as transformações e entrego-me, fiel por uma escassa eternidade à solene procissão de alma que é a precisão da paciência que reveste, numa esperança de recuperar uma outra, mais sincera e interior... Mas uma rajada de aspereza sublinha o gesto perdido, o peso do livro por ler, e as suas capas de nunca, encerrando o conjunto a ilusão de enquanto eu me permiti fingi-la. Foi emanando, do gesto de folhear, a côr alva e sólida das páginas, em lugar da transparência do conhecimento.

Sopro a mentira da lágrima. Restam por baixo as sensações esporádicas, reactivas. É da circunstância que emanamos, não tanto do método ou costume. A flôr recolhida aprecia o seu centro, nocturna, e aguarda a carícia de um novo astro que a permita sorrir a serenidade do perfil, mesmo entre o todo categórico e uníssono de apreciações diatónicas do que é.
Como cisnes fluindo, passeando por sobre a coloração esbatendo-se recortada pelas sombras das árvores de fim de tarde, as frases derivantes na vaga impaciência que as velhas margens fitam, os seus verdes cansados de sempre. Uma ou outra ardilosa inspiração transparente, patas que se agitam no salpicado instante de ameaçar o golpe de asa, e até a inquietação é por fim airosa na maneira como se dissipa, concêntricas perturbações fugazes à quietude iniludível da superfície, apartadas pelo temeroso abraço díspar da impossibilidade turva da coesão. As rãs coaxam à passagem, recebem a sonolência da noite impondo-se ao seu desespero formal. Subjacentes à paisagem, os ruídos de fundo são-no cada vez mais, e é essa a verdade que emerge dos últimos raios de sol translúcidos, desmistificando a profundeza e os nenúfares. Ainda, uma conforme jangada permite recolher esses pedaços, como quem colecciona recortes de jornal para os estampar numa tela difusa e ritualista, memórias compulsivas e fugidias, membros saudosos de um mero corpo.

segunda-feira, março 05, 2007

Vestígios de som, lembranças na noite

Os ecos nocturnos da arte
relembram que sofro e que sou,
relembram quanto existo e dou
à escura selva de almejar-te.

Em gestos eternos a sorte
atiça o galope, e a guarida
sua dista del' tão sofrida
o mesmo que a vida da morte.

Na bruma, pela voz envolta
(carrocel de minh'alma louca)
me entrego à intérmina volta

de te querer mais cá e boca
a beijar o querer ter-te solta,
tontura após ânsia... a voz rouca...

sexta-feira, março 02, 2007

Eternamente, no limiar da espiral me provoco e à vertigem de repetir as alturas. Oscilo, e caem de mim as folhas que taparão, eixo abaixo, o centro da terra. A desorientação entranha-se nos ares que inalo, árvore abandonada. Podada a conquista do tempo, multiplica-se cada segundo uma míriade de invasões, rasto arenoso de tempestade, e a floresta vista de cima tinge-se confusa de limalha de rocha. O vôo é um músculo violentado pela asa, um abraço maior que o seu diâmetro. Famílias inteiras são laços quebrados, projectadas para o longe antes sequer de constituídas. Perde-se aos poucos a pertinência das frases, e os sentidos ressentidos não mais se enamoram do afim, escondidas as flores almadas no canteiro visual, seu disfarce múltiplo murchando, varanda que definha por ser arquitectura antes da casa. Escorre tinta velha, a frântica erosão rasgando-a.

Assim se despedaça o ambicioso apogeu aéreo, Ícaro após Natureza (incompleta, clareiras).

quinta-feira, março 01, 2007

A vós:

Queríeis ver-me, produto, na leitura...
De ter do mundo uma centalha de magia
a acender-se pela chama desse dia
são ambições, vosso interesse ou a ternura.

São mitos do que sois, traje ou costura,
hábitos vossos de vestir ou de tecer,
imagens que às cores quereis rever,
abjecta a escuridão e amargura.

Mas deste fraseado não se avista
que a dôr exposta feia e verdade
cuspindo pela estética prevista!

Do côro irracional que há p'la cidade
falso artista social? Antes autista...
Minha é a voz sem personalidade!

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Escava-se um nicho.
As águas convulsionam-se, humedecem o espaço.
Lesmas e outros seres do subsolo vêm espreitar.
Está reaberta a exposição no museu milenar,
rios antes das nascentes;
e as horas estão de visita.

É mais um dia de internamento.

sábado, fevereiro 10, 2007

Dois fragmentos do Círculo da Recuperação:

Fertilidade

Entrego-me ao vento.
Onde estás, energia suprema?
Peço-te que me ergas deste chão; revolve-me, sublima-me, semeia-me pela sociedade.
Abate-me esta desterrada sensação do que ficou por cumprir.

Encantamento plural

Sou mais que alguém. Sou a vossa mãe. Sois o meu ventre rasgado de continuarem, de dôr contente e de amôr simples e natural.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

O desdém é uma pinça com que num cirúrgico rompante de brutalidade se arrancam as pétalas, que desabrochavam, uma a uma. Sombria, a gestação torna-se sonho, onde se dá à luz uma jangada e se premeia o passo com o calçado de pisar novamente e pela primeira vez. O verniz substitui os vestígios de cor que entremeiam as páginas de um livro calado, consciência borrada de romance por um lago. Suas águas paradas, tingidas ao de leve por uma brisa imperceptível, são a seiva a escorrer melosa pelo caule hirto ao vento, vegetação na memória de crescer. Um esforço alegra-se de sorrir a embarcação, com o recém-nascido dentro, ao encontro do marítimo azul, da paisagem geral de mundo e de belo. Experiências, a sensação de ser mãe está versada para adiante, para o horizonte de reminiscências de viagem. A pessoa contenta-se de algo em detrimento de si.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Das últimas duas semanas:

Ergo-me aqui, um hoje alto, futurista.
Deste antevôo, derroto a vertigem vazia.
As gaivotas surgem, como que proclamando,
e a vitória é delas o bater das asas.
Desafio a amurada. Sorvo-a até ao fim.
O fundo da chávena são grãos de amor,
e as gaivotas mergulham, debicando.
Esta reciclagem é a higiene do sonho.
Purificaram o rio. As fábricas tiveram greves.
Os despojos da mentira foram coados primeiro.
A mágoa não cabe no balde, afoga-se pelo poço.
A água sabe a cristalina, o seixo a medicina.
Há uma enorme pureza na ilusão colectiva.

Porém, a massagem é duas -
o espelho rachou de real, e é-o por fim realmente.
Numa delas, a mão que não está está aberta,
e no seu centro a dádiva dos sentidos;
na outra, a mesma, há só nada, um punho fechado
cujos tendões dormem a vida estendida.
O passageiro estremece o comboio no sobressalto de si.
A ponte está para trás e a travessia ruiu.
Junto à bagagem ninguém lhe deita a mão.
O impulso desiste antes de um cadeado.
A chave da confiança aguarda perdida num bolso,
mas os dedos têm sono de saber em qual deles.
Rasgou-se-lhes o sorriso no arame farpado.
Saltaram a cerca e fugiram, de pontas e dôr a abanar.
Brincaram às cicatrizes cá fora, num pátio
que não era um jardim, tão pouco uma selva,
e sim uma espécie de mistério pantanoso.

Ao pegajoso passado que tanto exaspero
brado hoje um simples hurra, estaca zero,
apoiado na alma calma e ciente,
expectante apenas vagarosamente.
A plenitude de sentir está ali, à minha espera.
Sei-o das rãs que chapinham nos charcos
que por esta torpe paisagem passam barcos
capazes de atravessá-la e à quimera.
A um golpe de leme dá-se a guinada
da contemplação perante a alvorada.
As antigas braçadas tristes e inúteis
iluminam-se douradas, aladas, quase úteis
formas de ser, de estar e de abraçar
nestas palavras, sons dos pensamentos,
a minha própria forma de observar
o que exterior me apazigua sentimentos.

E até que alguém me interrompa num silêncio desigual,
a prolífica ilusão de traçar vida virtual
será um vago sorriso, emoção vaga mas real;
até que me empurrem de ameias, do môrno calor,
até que a areia ceda às ondas, à espuma de dôr,
beberei tragos altivos de paz com gotas de Amôr.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Vão vendo estas minhas páginas passadas, pretendo actualizá-las mais vezes nos próximos tempos. D'anteontem:

Esvai-se-me a palavra perante a verdade da folha branca. Estou-me a sentir mal no meio desta gente toda. Sua paz é seus ritos urbanos, e a confiança simples de ser.

Assenta em mim também uma paz triste, com que olho a passagem geral. Vejo não só a distância de mim para com todos, mas sobretudo o quão distante estou de ela mesma. É como se um espectro meu se houvesse despegado de mim, e soubesse de antemão a vida do fundo do tapete rolante que actualmente me leva. Como se o estímulo de haver gente em redor, a breve oportunidade de entabular em interacções promissoramente espontâneas, ainda que fugazes, se diluisse numa excepcionalmente recuada maré, hoje não por acção da Lua ou do Medo, mas dada a claridade com que vi para lá dela, dada a nitidez da provável insignificância de qualquer troca de palavras que me venha à imaginação, qualquer aproximação ao entendimento que efectivamente consiga, e dada a transparência do desalinho maior por trás disso.

Observo como rendido e submisso me perco mais do mundo para me poder encontrar a mim, a sós. À medida que saram as metáforas, dou comigo objectivamente mais distinto, mais estranho a eles, e com menos disposição para mentiras e para verdades. Coagulo em silêncio.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Chegado aqui, o remo é ilúcido. Conturbada pela correnteza, a quilha de murmúrios resvala por fim nos areais. A crista trazida é a mística desfeita, um rombo de dispersão frugal. Lamacentos, os desígnios são agora imposições já nada camufladas, percurso entediante de bote até uma costa. Imponente, a física do barco é as linhas esbatidas ao longe, infraestrutura sem prédio. Tal construção abandonada faz lembrar a incapacidade, destruídos (incompletos) a um mal menor, insignificante. Já a significação dorme estendida às memórias rubras que anoitecem, restando só o incompleto da queimadura, o peso invísivel de as cargas se afundarem. Ciclo empoleirado na gaiola total, a gaivota da passagem anuncia-se de novo, aérea, superior. Algumas das suas penas bóiam serenas (fatídicas) no charco de estar.

Fui hoje algum mistério na Arte, mas não Ela, mas não Mais. A intriga das linhas potenciou alguma visão, algum chamamento devidamente tributado (medições alheias), mas pouco enfrentei o proveito, pouco atravessei o remoinho. Os nós dados assentaram consigo a corda, foram lacra pronta em envelopes de unção, sacramento da dissertação como tal. A insuficiência decalcou pouca a tangibilidade do novo, salão de espelhos a coordenar o concêntrico dos caminhos, cartas prescritas (pois citações) atiradas ao mar-reflexo, sua extensão algo passiva e limites.

Natural, sento-me numa escada à beira-mar, humana e de pedra, e adormeço enconstado aos degraus, que vagos sobem e descem ao ritmo distante da maré próxima.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Perseguidos pela não-Arte, os fotões circunscritos clareiam-se aguerridos de precipitação. Baralha-se o gesto sistémico, confuso por entre os naipes da fricção e do ouvido. Clareira intermitente, o espaço é também observação, eco, e surdina, principalmente surdina, transiente reduto com uma noção patética. Misto de solene (holofote no tecto de imaginação) com temível e silente (pedra e entulho do fundamental pilar amontoado), a demasia local, preâmbulo em recuperações recorrentes, imensamente intencionais, de haver entre as capas. Em contra-partida, os carris libertam-se da guinada por projecto baço, antigo e rasteiro, nada que a hora dos terramotos não abale científica. Curvas, as tragédias estudam o artifício romanceado de se serem, ruído na conversa-carruagem, fixo trilho alternado da pouca inventividade. Cede porém o flagelo do conformismo, sempre, à alusão camuflada de pombo-correio, à simpatia do concurso enquanto desfecho, e a sinceridade destina à Mulher todas as Mulheres a mensagem impossível de um sorriso. A Verdade aguarda que, não turvas de periferia, as águas da realidade reflictam a leitura respeitante, flutuando nela. Ondulações, a legislação harmoniza-se paciente num decreto convergente e derradeiro.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Pelas áleas do espaço e pelas áleas do tempo,
caminho para amanhã numa procura do hoje.
Perco-me na rota e perco-me no descaminho.
Sou um altar à quimera na paciência do sítio.
Dou-me ao circundante como me dou a ninguém.
A oferta desaparece junto à casualidade.
Despeço-me de tudo, e despeço-me de todos.
Ecoa todo o silêncio onde o ruído não é comigo.
Despejo-me para a comida, hoje rebordo prenhe de fomes. A distensão tacteia o sal do cajú, ânsia na pele, aquela que é, no cérebro, desocupação. De encontro à mão estendida, o fundo do prato, a tela impenetrável escorrendo as tintas do inicial, o pincel num coma que se aprofundou. Em cada vez mais electricidade, o parto submerso na tisana de sempre dá-se efervescente pelo abismo, mas só a verbalização do espelho inciente (turvo por reflexos) é as folhas aromáticas a boiar suadas. A banalidade da impressão digital afugenta o monoteísmo do vôo, traçado no intermitente que lembra agora a nuvem, disperso esboço de viagem. Refulgem, por sob a ponta física da aproximação abstracta e intuída, as anulações em branco total, que alguém inferirá húmido ou fino. Durmo o mundo em mil gestos, sonambulismo recortado às artísticas veias do azul-céu, conjuntura prescrita de intenção, e ainda assim tangente à óptica, intrigas esculpidas no fractal de poros. Flébil tesoura, estendo a estampa na farsa primaveril. A punctura, agulha sozinha, é a noção de se ser discípulo da rotação. No centro do horizonte, realidade vária, vértebras são espalhadas por um tornado, leitos os terrenos dispostos em distância presencial. Sem ortopedia, a vontade é absorta - rito, dôr, e sequência (outra vez a hipótese).